domingo, 22 de abril de 2012

A fita branca

Quem não teve amarrado no pulso uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim da Bahia? 
Alguém trazia de viagem e te dava de presente. Eram as mais diversas cores que tinham haver com as cores dos orixás ou com a cor que você  mais gostava, já que ia ficar  tanto tempo com ela no braço.
Uma amiga amarrava no seu pulso com 3 nós e um pedido para cada nó. Pronto, um ano e meio com a fita até arrebentar. Certa vez, em um casamento onde eu era madrinha, tive que colocar uma pulseira por cima da fita que estava um verdadeiro trapo desfiado e que não ia combinar com a roupa. 
Depois teve a época em que amarrávamos no tornozelo. Ah... agora sim, aquele trapinho não ia mais incomodar o figurino de determinados lugares. Na perna quase ninguém reparava. 
Quanto aos pedidos e que nós acreditávamos ardentemente, eles não podiam ser filosóficos como ter sempre saúde, ser feliz para sempre, emagrecer imediatamente, ter amor no coração, essas coisas. Tinham que ser pedidos objetivos e concretos e que demoravam tanto que quando a pulseira arrebentava, já tínhamos esquecido o que tínhamos pedido. Coisas de adolescente. 
Ah, e tinha que jogar no mar quando a fita arrebentasse pois só assim os pedidos aconteceriam.
Certa vez, eu estava em Paris jantando em uma casa-barco de um casal que morava na altura do Canal de Saint Louis com o Rio Sena. Eu brasileira, meu namorado brasileiro residente na França, e o casal: ela portuguesa e ele francês. Lá pelas tantas, levanto para ir ao banheiro e a minha fitinha-trapinho do meu braço arrebenta. Eu fique paralisada com ela na mão sem saber o que fazer e ao mesmo tempo tentando lembrar os meus pedidos de quase dois anos atrás. Foram alguns momentos de angústia e perplexidade. Ficaram todos me olhando sem entender o que se passava e eu sem conseguir explicar. Bom, o francês jamais compreendeu. A portuguesa talvez, para ser simpática, riu da história. E o namorado, como todo brasileiro, sabia do poder das fitinhas.
Aí eu pensei: não posso guardar a fita na carteira até voltar para o Brasil e jogar no mar, provavelmente na praia de Ipanema. Ia demorar muito.... ainda tínhamos muita viagem pela frente. Eu não ia conseguir esperar mais.
Vou jogar no Sena, eu pensei. Não é mar, mas é água e é água corrente, então serve. 
Sempre tive a capacidade de mudar as regras dos jogos e das receitas culinárias e portanto transformar o mar em rio, era fácil.
Subimos para a proa do barco e lá no cantinho fiz uma breve oração ao Nosso Senhor do Bonfim agradecendo mais ao que estava acontecendo naquele momento do que aos pedidos que eu já não lembrava com exatidão. E assim lá se foi minha fitinha branca nadando no Sena.
Acho que está no hora de voltar a Salvador e amarrar outra fitinha no meu braço. Quem sabe da próxima vez ela arrebenta nas Ilhas Gregas?

São Jorge Valente


Nos últimos dois anos, no dia de São Jorge, venho postando essa poesia de Jacinto Fábio Corrêa. Se eu tivesse que escrever algo tão belo sobre o santo, seria assim. 
Salve Jorge!

"Ah, se eu tivesse que ser um santo
eu queria ser São Jorge.
Não é poeta mas mora na lua
Não é católico mas se faz o mais apostólico dos guardiões
Não é onipresente mas se multiplica pelos lares
Nem é predileto mas passeia por meu coração brasileiro.


Toda vez que o reencontro na parede na sala
a casa vira um cinema e eu
encantado de beleza e valentia
assisto ao seu cruel mas necessário ritual
de exterminar os dragãos que nos afligem.
Não me deito sem agradecer-lhe em nome do mundo:
lenço bordado de versões à mão
enxugo o sagrado suor do seu rosto."

O Heleno de Rodrigo

Que Rodrigo Santoro é lindo todo mundo sabe. Agora que ele é um excelente ator, nem todos. Primeiro porque, infelizmente, existe um preconceito de que ser bonito significa não ser bom ator. Mas ele está aí para provar exatamente ao contrário. 
Rodrigo fez várias novelas, mas ele é ator de cinema. Ele tem o olhar do ator de cinema, o que é fundamental. Quando fez  Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, em 2001, ainda um jovem rapaz, mostrou que veio para ficar. Aliás foi esse o filme responsável por sua carreira internacional por conta dos prêmios e dos festivais no exterior que participou. Depois veio Abril Despedaçado, de Walter Salles onde também deu um show de interpretação. Falando apenas dos filmes nacionais, posso destacar ainda Carandiru, de Hector Babenco, e Desafinados, de Walter Lima Jr. Bom, e agora temos Heleno, de José Henrique Fonseca. Rodrigo é digno de Oscar com esse filme. 
O Rio de Janeiro nos anos 40 e 50 fotografados por Walter Carvalho em preto e branco é de tirar o fôlego. É um belo filme. Forte, é verdade, pois a trajetória do jogador de futebol do Botafogo, que eu não conhecia, é triste, descontrolada e interpretada magistralmente por Santoro. Aline Moraes cada dia mais bela e também muito bem em sua personagem. Vale a pena ver e sentir a força do cinema brasileiro nas telas.

Heleno de Freitas

Dicas

* EXPOSIÇÃO - Fuga > Lenta, de Joana Cesar
Galeria de Artes Athena Contemporânea - Shopping Cassino Atlântico.
Joana ficou conhecida por criar e pintar nos muros da cidade um alfabeto cifrado que só ela entendia. Até ser identificado por estudiosos da arte de rua. Isso em 2003. Sua primeira exposição individual traz um pouco dessa arte de rua, mas com uma maturidade criativa muito interessante. Até 5 de maio, dentro do coletivo Atlântico Contemporâneo. Grátis.

* 13º Salão FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil.
Este ano o Salão faz uma homenagem a Bartolomeu Campos de Queiros, escritor mineiro falecido no início do ano. Além do escritor, o país homenageado é o México. Com mais de 70 editoras e 85 estandes voltados pára o público infanto juvenil, a programação conta com debates, seminários, lançamentos com os maiores ilustradores do país. 
De 17 a 29 de abril - Cidade Nova, Centro de Convenções.

* Jardim Botânico - EU NEUTRALIZO
Já pensando na Rio+20, o Jardim Botânico abre no próximo dia 20, o projeto Eu Neutralizo, que através de atividades lúdicas buscará sensibilizar as pessoas para adotarem práticas sustentáveis no dia a dia.
Lago das Tartarugas - grátis

Andando por aí










domingo, 25 de março de 2012

Outono, por Pablo Neruda

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos.
Não quero dormir sem teus olhos
Não quero ser...sem que me olhes
Abro mão da primavera
para que continues me olhando
durante todo o outono".

Rio-Niterói

Lembro da construção e da inauguração da ponte Rio-Niterói, em 1974. Eu era criança mas a imagem do dia em que passei por ela pela primeira vez é inesquecível em minha memória. Estava com toda a família e fomos passear em Niterói.
Eu morri de medo, achava que a ponte ia cair e que não ia aguentar o peso dos carros. Quase 40 anos depois ela está lá, linda, poderosa e reflexiva, como diz um amigo. Quando passamos por ela, temos tempo de refletir sobre a vida.
São 13 km de beleza urbana misturada com natureza. Uma combinação que deu certo e atualmente mais de 140 mil veículos passam por ela nos dois sentidos. As cidades cresceram, os carros triplicaram...
Lembro que em dias de tempestade e ventania, as kombis não podiam atravessar a ponte. Acho que nem tem mais kombis circulando pela cidade... Lembro da primeira pessoa que pulou lá de cima despedindo-se da vida. Foi um choque. Lembro também de como era mais rápido chegar na região dos lagos.
Para quem faz esse trajeto diariamente e pega a ponte engarrafada, não deve perceber mais a beleza da baia de Guanabara. Mas para o usuário eventual, como eu, é sempre um passeio. Confesso que quando passo de ônibus, tenho um frio na barriga quando ele está ao lado da mureta. Prefiro fechar os olhos. Passar de barca embaixo dela também é uma emoção, só que diferente.
Sempre gostei de pontes, sejam aquelas pequeninas que apenas atravessam um rio ou as grandes construções espalhadas pelo mundo. Ela sempre liga um lado ao outro. Vai ver por isso é reflexiva.

Gentileza Gera Gentileza

Por conta das alegrias da vida e percalços que a mesma vida nos faz passar, me vi envolvida durante este mês de março com muita gentileza de amigos reais, virtuais, parentes, amores ou apenas conhecidos. E claro que me remeti ao profeta gentileza, até mesmo porque andei passando várias vezes por onde ele pintou os murais da cidade.
O paulista José Datrino (1917-1996), conhecido como profeta Gentileza, foi uma espécie de pregador da harmonia e que a partir dos anos 80 iniciou seus textos e inscrições sob o viaduto do Caju em 56 pilastras por uma extensão de 1,5 km, hoje restauradas.
Conta-se que na antevéspera do incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, em 1961, ele ouviu vozes que o mandaram abandonar o mundo material e se dedicar ao espiritual. No local do grande incêndio, Gentileza morou por 4 anos plantando uma horta e consolando as vítimas da tragédia, transformando o local em Paraíso Gentileza. Após esse episódio, tornou-se um andarilho e pregador na cidade do Rio de Janeiro. Pregava o amor ao próximo, a natureza, a bondade e o respeito. Foi tratado por louco, agressivo e muitas outras histórias. Mas o que ficou, depois de sua morte, foi o que ele tinha de melhor:
Gentileza Gera Gentileza.
Obrigada.

Cidade de Deus - 10 anos depois

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, é um dos filmes brasileiros mais impactantes dos últimos tempos. Uma verdadeira obra de arte.
Adaptado do livro de Paulo Lins, por Bráulio Mantovani, o filme arrebatou prêmios em festivais de cinema pelo mundo afora, incluindo 4 indicações ao Oscar - melhor diretor, edição, roteiro adaptado e fotografia. Um grande orgulho para a história do cinema brasileiro.
10 anos se passaram e Luciano Vidigal e Cavi Borges fizeram o documentário Cidade de Deus - 10 anos depois onde mostram como está a vida dos atores, dos moradores e da comunidade.
Como o dinheiro do financiamento não foi suficiente, a produção esta fazendo sessões pagas com a equipe, com os atores e aceitando doações para que tenham o restante do dinheiro para a finalização e a inscrição no Festival do Rio e, certamente, em inúmeros outros festivais.
Um bom projeto para quem desejar colaborar.
Maiores informações www.cavideo.com.br

Hugo Cabret

Acredito que todo cinéfilo tenha sua lista dos 10 mais, dos 50 mais ou até dos 100 melhores filmes da sua vida. A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, entrou para a minha.
O filme emociona principalmente pela grande homenagem que faz ao cinema. Emociona pela delicadeza, pelo sonho e fantasia daquele menino que mora entre as paredes de uma estação de trem cercado de relógios por todos os lados, e pela beleza das imagens jamais vistas.
O elenco, o figurino, a direção de arte, os efeitos ... e trilha sonora, meu Deus! É um filme encantador.
Faria parte do meu sonho, se pudesse, conhecer aquele estúdio de vidro criado por George Méliès. Uma deliciosa viagem ao início da história cinematográfica.
Martin Scorsese já nos presenteou com filmes inesquecíveis e tão diferentes como: Taxi Driver, A última tentação de Cristo, Gangues de Nova York, O Aviador, A ilha do medo, entre outros.
Mas para mim Hugo Cabret é campeão mesmo não sendo falado em francês.
Em cartaz em vários cinemas da cidade.

Exposições

Muitas exposições estão pela cidade. A vontade é de fazer um tour e ir de uma a uma apreciando tanta beleza e arte das mais diversas formas.
Algumas:

Tarsila do Amaral - Percurso Afetivo - Centro Cultural do Banco do Brasil - CCBB
A primeira vez que vi um original de Tarsila foi no Malba, em Buenos Aires. Emoção pura. Agora temos 82 obras entre gravuras, desenhos e pinturas.
Até 29 de abril.

Chaplin e sua imagem - Centro de Artes Helio Oiticica
O maior gênio do cinema em exposição do acervo da família com fotos, videos documentais e gravuras expostas em museus pelo mundo.
Até 29 de abril.

Tutto Fellini - Instituto Moreira Salles
Fellini foi o responsável por eu gostar de cinema na vida. Essa exposição mostra o universo do cineasta com filmes, fotos, desenhos, cartazes, entrevistas, etc.
Até 17 de junho.

Simplesmente Doisneau - Centro Cultural da Justiça Federal
Comemoração do centenário do fotógrafo francês com 200 imagens muitas delas inéditas e entre elas, a mais bela "O beijo do Hotel de Ville".
Até 17 de junho.